A vitamina D é essencial para a saúde dos ossos e participa da regulação do sistema imunológico. Mas será que níveis baixos dessa vitamina podem influenciar a saúde das gengivas e a formação do tártaro? Entenda o que a ciência já descobriu.
Quando falamos sobre saúde bucal, é comum pensar na escovação, no uso do fio dental e nas consultas odontológicas. Entretanto, a saúde da boca também envolve processos biológicos que acontecem em todo o organismo.
Entre os nutrientes que despertam interesse na pesquisa odontológica está a vitamina D, conhecida principalmente por sua participação na absorção do cálcio e na manutenção dos ossos. Além dessas funções, ela também participa da regulação da resposta imunológica e de processos relacionados à inflamação.
Estudos científicos investigam se existe uma associação entre os níveis de vitamina D e as doenças periodontais, que afetam a gengiva e os tecidos responsáveis pela sustentação dos dentes. Para compreender essa relação, precisamos conhecer como o tártaro se forma, qual é o papel da vitamina D no organismo e o que as pesquisas científicas realmente demonstram.
O que é o tártaro dentário e como ele se forma?
O tártaro, também chamado de cálculo dentário, é formado quando o biofilme dental — a película composta por bactérias, saliva e outros componentes — sofre um processo de mineralização.
Inicialmente, o biofilme se acumula sobre os dentes. Quando não é removido adequadamente, os minerais presentes na saliva e no fluido gengival podem se depositar nessa película, endurecendo-a progressivamente.
Depois de mineralizado, o tártaro adere à superfície dentária e não pode ser removido de maneira eficaz apenas com escovação e fio dental. Sua remoção exige instrumentação profissional.
O tártaro pode se formar acima da margem da gengiva ou abaixo dela, em regiões próximas às raízes dentárias. Sua presença pode favorecer a retenção de biofilme e dificultar a higiene, contribuindo para a manutenção da inflamação gengival.
É importante esclarecer que o principal fator envolvido na formação do tártaro é a mineralização do biofilme. Sua quantidade e velocidade de formação variam entre as pessoas e podem ser influenciadas por fatores como composição da saliva, higiene bucal, localização dos dentes e características individuais.
Portanto, uma pessoa que apresenta muito tártaro não necessariamente tem deficiência de alguma vitamina. Da mesma forma, a ausência de tártaro não comprova que todos os aspectos da saúde bucal estejam adequados.
Qual é o papel da vitamina D no organismo?
A vitamina D é um nutriente fundamental para diferentes funções do corpo. Uma de suas principais atribuições é favorecer a absorção intestinal de cálcio e fósforo, minerais essenciais para a formação e a manutenção dos ossos.
Quando os níveis de vitamina D estão inadequados, o metabolismo ósseo pode ser prejudicado. Em situações de deficiência importante e prolongada, podem ocorrer alterações como osteomalácia em adultos, condição caracterizada pela mineralização inadequada dos ossos.
Além disso, a vitamina D participa da regulação de mecanismos imunológicos. Ela influencia a atividade de determinadas células de defesa e processos relacionados à resposta inflamatória.
Essas funções despertam o interesse da odontologia porque os tecidos periodontais dependem tanto da manutenção do tecido ósseo quanto de uma resposta imunológica equilibrada diante dos microrganismos presentes na boca.
Entretanto, a participação da vitamina D nesses processos não significa que aumentar sua concentração no organismo necessariamente previna doenças gengivais ou reduza a formação do tártaro.
O benefício depende do contexto clínico, do estado nutricional e de outros fatores que influenciam a saúde periodontal.
Vitamina D baixa pode estar relacionada à doença periodontal?
Essa é uma das principais questões investigadas atualmente.
A periodontite é uma doença inflamatória crônica que compromete os tecidos de sustentação dos dentes. Sua evolução envolve a interação entre o biofilme bacteriano, a resposta imunológica do indivíduo e fatores de risco, como tabagismo, diabetes e predisposição individual.
Como a vitamina D participa da regulação imunológica e do metabolismo ósseo, pesquisadores investigam se níveis inadequados podem estar associados a maior suscetibilidade ou gravidade da doença periodontal.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 encontrou associação entre periodontite e níveis séricos mais baixos de vitamina D em parte dos estudos analisados. Entretanto, os resultados não foram uniformes em todas as medidas avaliadas. Uma meta-análise de estudos observacionais publicada em 2024 também identificou uma associação entre maior ingestão de vitamina D e menor ocorrência de doença periodontal.
A saúde bucal também é influenciada pela alimentação como um todo, pelos hábitos de higiene, pelas condições sistêmicas, pelo acesso ao atendimento odontológico e por diversos outros fatores que podem interferir nos resultados.
Quais fatores influenciam a formação do tártaro?
A quantidade de tártaro pode variar bastante de uma pessoa para outra. Entre os fatores que podem influenciar seu acúmulo estão:
1. Higiene bucal. A remoção diária do biofilme reduz a quantidade de material disponível para mineralização.
2. Composição da saliva. A saliva contém minerais e apresenta características que influenciam o processo de formação do cálculo dentário.
3. Localização dos dentes. Algumas regiões, especialmente próximas à saída dos ductos das glândulas salivares, podem apresentar maior tendência ao acúmulo de cálculo supragengival.
4. Características individuais. A velocidade de formação do tártaro e a composição do biofilme variam entre as pessoas.
5. Acompanhamento odontológico. Consultas periódicas permitem identificar depósitos de cálculo, avaliar a saúde gengival e realizar a remoção profissional quando necessária.
Esses fatores ajudam a explicar por que algumas pessoas desenvolvem tártaro com maior rapidez do que outras, mesmo quando relatam hábitos de higiene semelhantes.
Se o tártaro se acumula rapidamente, o ideal é investigar a rotina de higiene, as regiões de maior retenção de biofilme e as condições periodontais. A avaliação nutricional pode ser considerada quando houver outros motivos clínicos para isso, mas não deve ser indicada automaticamente apenas pela presença de cálculo dentário.
Como cuidar da saúde periodontal de forma integrada?
A prevenção das doenças periodontais envolve uma combinação de cuidados diários e acompanhamento profissional.
- Escove os dentes adequadamente: utilize creme dental fluoretado e dê atenção à região próxima à margem gengival.
- Use fio dental diariamente: ele auxilia na remoção do biofilme entre os dentes, onde a escova não alcança com facilidade.
- Realize avaliações odontológicas periódicas: a frequência deve ser individualizada conforme o histórico e as necessidades de cada paciente.
- Faça a remoção profissional do tártaro quando indicada: o cálculo endurecido não é eliminado apenas com a higiene doméstica.
- Mantenha uma alimentação equilibrada: uma dieta variada contribui para o fornecimento de nutrientes importantes para a saúde geral.
- Investigue possíveis deficiências nutricionais quando houver indicação: exames e suplementação devem ser definidos de acordo com o contexto clínico.
- Controle condições sistêmicas: diabetes e outras condições de saúde podem influenciar a resposta inflamatória e a saúde periodontal.
É importante evitar a suplementação por conta própria. Doses excessivas de vitamina D podem provocar aumento do cálcio no sangue e causar complicações, incluindo problemas renais. A necessidade de suplementar, a dose e o tempo de uso devem ser definidos por um profissional de saúde.
Também não é recomendado realizar exames laboratoriais indiscriminadamente para todas as pessoas. A investigação deve considerar os fatores de risco, os sintomas, o histórico clínico e as recomendações aplicáveis a cada caso.
O que a avaliação integrativa pode acrescentar?
Uma abordagem integrativa considera que a saúde bucal faz parte de um contexto mais amplo, no qual hábitos de vida, condições sistêmicas, alimentação e fatores individuais podem influenciar a prevenção e o tratamento.
Na avaliação odontológica, isso significa observar a saúde da gengiva, o acúmulo de biofilme e tártaro, a presença de sangramento e outros sinais clínicos, além de considerar o histórico de saúde do paciente.
Quando existem indícios de alterações nutricionais ou condições sistêmicas que possam interferir no cuidado periodontal, pode ser pertinente discutir a necessidade de investigação complementar e, quando necessário, trabalhar em conjunto com outros profissionais de saúde.
Essa abordagem não significa atribuir o tártaro a uma deficiência vitamínica, mas compreender que cada paciente possui características próprias e que o cuidado deve ser planejado com base em evidências científicas.
Na Integrivita, valorizamos a prevenção, a avaliação individualizada e a orientação clara, para que cada pessoa compreenda suas necessidades e participe das decisões sobre o próprio cuidado.
Referências científicas
- Gillani Haji A, Ghezzi B, Tagliaferri S, Bostanci N, Calciolari E. The effect of vitamin D supplementation on periodontal health: a systematic review and meta-analysis. Evidence-Based Dentistry. Publicado em 19 de agosto de 2026. DOI: 10.1038/s41432-026-01244-w.
- Mi N, Zhang M, Ying Z, Lin X, Jin Y. Vitamin intake and periodontal disease: a meta-analysis of observational studies. BMC Oral Health. 2024;24:117. DOI: 10.1186/s12903-024-03850-5.
- Association of vitamin D in individuals with periodontitis: an updated systematic review and meta-analysis. PubMed. 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37312090/.
- National Institutes of Health, Office of Dietary Supplements. Vitamin D: Fact Sheet for Health Professionals. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/VITAMIND-HealthProfessional/.


