Aftas recorrentes: quando investigar zinco, ferro, vitamina B12 e folato?

Aquelas pequenas feridas doloridas que aparecem repetidamente na boca podem ter diferentes causas. Em alguns casos, deficiências nutricionais estão entre os fatores envolvidos. Entenda quando vale investigar e quais sinais merecem atenção.

Quem já teve uma afta sabe como uma lesão aparentemente pequena pode incomodar. Comer, escovar os dentes e até conversar podem se tornar desconfortáveis durante alguns dias.

Na maioria das vezes, as aftas comuns desaparecem espontaneamente. Porém, quando as lesões surgem com frequência, demoram para cicatrizar ou começam a interferir na rotina, é importante investigar o que pode estar contribuindo para seu aparecimento.

Entre os fatores estudados estão as deficiências de ferro, vitamina B12, folato — também conhecido como vitamina B9 — e zinco. Esses nutrientes participam de funções importantes para a formação e a renovação dos tecidos, o transporte de oxigênio e o funcionamento do sistema imunológico.

Mas é fundamental esclarecer: nem toda afta é causada por falta de vitaminas ou minerais. As lesões recorrentes podem ter origem multifatorial, e a investigação deve considerar o histórico clínico, os hábitos, as características das feridas e outros possíveis sintomas.

O que são aftas e por que elas aparecem?

As aftas, conhecidas clinicamente como úlceras aftosas, são lesões dolorosas que surgem na mucosa da boca. Costumam apresentar formato arredondado ou oval, centro esbranquiçado ou amarelado e uma borda avermelhada.

Geralmente aparecem na parte interna dos lábios e das bochechas, embaixo ou nas laterais da língua e em outras regiões da mucosa oral.

A causa exata das aftas recorrentes nem sempre é identificada. Sua ocorrência pode envolver predisposição individual, resposta imunológica, pequenos traumatismos e diferentes fatores desencadeantes.

Entre os possíveis fatores associados estão:

  • Pequenos machucados provocados por mordidas, escovação ou aparelhos odontológicos.
  • Estresse e alterações na rotina.
  • Determinados alimentos que funcionam como desencadeantes para algumas pessoas.
  • Alterações hormonais em situações específicas.
  • Deficiências nutricionais.
  • Algumas doenças sistêmicas e condições que afetam a absorção de nutrientes.
  • Reações a determinados medicamentos.

A presença de aftas recorrentes não significa necessariamente que exista uma doença sistêmica. Entretanto, quando elas são frequentes, intensas ou acompanhadas de outros sintomas, uma avaliação pode ajudar a identificar fatores que mereçam tratamento.

Qual é a relação entre aftas e deficiências nutricionais?

A mucosa da boca está em constante renovação. Para que esse processo aconteça adequadamente, o organismo precisa de nutrientes envolvidos na divisão celular, na formação dos tecidos e no funcionamento das células de defesa.

Quando existe uma deficiência nutricional, alguns desses processos podem ser prejudicados. Em determinadas pessoas, isso pode estar associado ao aparecimento de lesões orais ou à maior frequência de aftas.

Pesquisas científicas encontraram associações entre a estomatite aftosa recorrente e alterações em alguns indicadores nutricionais, especialmente vitamina B12, ferro e folato. O zinco também vem sendo estudado por sua participação na cicatrização e na função imunológica.

Essas associações não comprovam que a deficiência seja a causa de todas as aftas. Também não significam que suplementar esses nutrientes fará as lesões desaparecerem em pessoas que não apresentam deficiência.

Para entender melhor, vale conhecer a função de cada nutriente.

1. Ferro: transporte de oxigênio e manutenção dos tecidos

O ferro é essencial para a produção de hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio pelo organismo.

Quando os níveis de ferro estão reduzidos, pode ocorrer deficiência de ferro e, em alguns casos, anemia. Essas condições podem afetar a disposição, a capacidade física e diferentes funções do organismo.

Algumas pesquisas identificaram maior frequência de alterações relacionadas ao ferro em pessoas com aftas recorrentes. A associação pode ser especialmente relevante quando as lesões aparecem junto de outros sinais que sugerem deficiência nutricional.

Entre os sintomas que podem justificar investigação estão:

  • Cansaço persistente.
  • Palidez.
  • Fraqueza ou redução da disposição.
  • Falta de ar durante esforços habituais.
  • Alterações na língua, como dor ou aspecto mais liso.
  • Aftas recorrentes associadas a outros sinais clínicos.

Esses sintomas são inespecíficos e podem ter diferentes causas. A presença de aftas, isoladamente, não confirma deficiência de ferro.

Quando existe suspeita clínica, o profissional pode considerar exames como hemograma e ferritina, além de outros testes conforme a necessidade.

Também é importante investigar por que o ferro está baixo. Perdas sanguíneas, ingestão insuficiente e problemas de absorção estão entre as possíveis causas, e o tratamento deve abordar a origem da deficiência sempre que possível.

2. Vitamina B12: renovação celular e funcionamento do sistema nervoso

A vitamina B12 participa da formação das células sanguíneas, da síntese de DNA e do funcionamento adequado do sistema nervoso.

Como a mucosa oral apresenta renovação constante, alterações no estado nutricional podem estar associadas a manifestações na boca. Estudos observacionais encontraram níveis reduzidos de vitamina B12 em parte das pessoas com aftas recorrentes.

Além das lesões, a deficiência de B12 pode estar associada a outros sinais, como:

  • Cansaço e fraqueza.
  • Língua dolorida, avermelhada ou com aparência lisa.
  • Formigamentos nas mãos ou nos pés.
  • Alterações de sensibilidade.
  • Dificuldades de memória ou concentração em determinados casos.

Nem todas as pessoas apresentam todos esses sintomas, e algumas manifestações podem surgir mesmo sem anemia evidente.

A vitamina B12 está presente principalmente em alimentos de origem animal e também pode ser obtida por meio de alimentos fortificados ou suplementação. Pessoas que seguem dietas veganas precisam planejar adequadamente sua ingestão desse nutriente.

A deficiência também pode ocorrer por alterações na absorção, uso de determinados medicamentos e outras condições clínicas.

Quando há aftas recorrentes associadas a fatores de risco ou sintomas compatíveis, a avaliação da vitamina B12 pode fazer parte da investigação. A indicação deve ser individualizada, e o resultado precisa ser interpretado junto ao histórico clínico.

3. Folato: essencial para a formação de novas células

O folato, ou vitamina B9, participa da síntese de DNA e da formação de células novas. Por isso, é importante para tecidos que se renovam rapidamente, incluindo a mucosa oral.

Níveis inadequados de folato podem estar associados a alterações na mucosa e a problemas na formação das células sanguíneas. Alguns estudos também identificaram deficiência de folato em uma parcela das pessoas que apresentam aftas recorrentes.

Entre as fontes alimentares de folato estão vegetais verde-escuros, leguminosas, frutas e outros alimentos que compõem uma dieta variada.

Entretanto, a alimentação não é o único fator que determina os níveis desse nutriente. Alterações na absorção, consumo excessivo de álcool, determinados medicamentos e outras condições podem interferir no estado nutricional.

Quando a investigação clínica indica essa possibilidade, o profissional pode solicitar exames específicos e avaliar se existe necessidade de correção.

Um cuidado importante: o uso de ácido fólico em doses elevadas pode corrigir algumas alterações sanguíneas sem tratar uma deficiência de vitamina B12, permitindo que manifestações neurológicas da deficiência de B12 continuem evoluindo. Por isso, não é recomendado iniciar suplementação em altas doses sem orientação profissional.

4. Zinco: cicatrização e funcionamento do sistema imunológico

O zinco é um mineral envolvido em diversas funções biológicas, incluindo a síntese de proteínas, a divisão celular, a resposta imunológica e a cicatrização dos tecidos.

Como esses processos são importantes para a manutenção da mucosa oral, pesquisadores investigam a relação entre os níveis de zinco e as aftas recorrentes.

Algumas revisões de estudos encontraram níveis médios de zinco mais baixos em grupos de pessoas com estomatite aftosa recorrente. Porém, os resultados variam entre as pesquisas, e essa associação não permite concluir que toda pessoa com aftas tenha deficiência desse mineral.

A deficiência de zinco pode estar relacionada a uma ingestão insuficiente, problemas de absorção e outras condições clínicas. Quando existe suspeita, a avaliação deve considerar a alimentação, o histórico de saúde e a pertinência dos exames.

O zinco também pode ser obtido por meio de alimentos como carnes, frutos do mar, ovos, leguminosas, sementes e oleaginosas.

A suplementação sem necessidade não é recomendada. O excesso de zinco pode causar efeitos adversos e, quando utilizado em doses elevadas por períodos prolongados, interferir na absorção de cobre e provocar outras alterações.

Toda afta recorrente exige exames de sangue?

Não necessariamente.

A decisão de investigar deficiências nutricionais depende da frequência das lesões, do tempo de evolução, da intensidade dos sintomas, do histórico alimentar, das condições de saúde e da presença de outros sinais.

Em pessoas com episódios frequentes ou sem uma causa local evidente, o profissional pode considerar exames como:

  • Hemograma completo.
  • Ferritina e outros indicadores do metabolismo do ferro.
  • Vitamina B12.
  • Folato.
  • Zinco, em situações selecionadas.

Esses exames não precisam ser solicitados indiscriminadamente para todas as pessoas. A escolha depende da avaliação clínica e das hipóteses levantadas durante a consulta.

Também pode ser necessário investigar outras condições quando existem sintomas associados, como alterações intestinais persistentes, perda de peso sem explicação ou lesões em outras regiões do corpo.

O objetivo da investigação é compreender o quadro como um todo, em vez de simplesmente tentar eliminar a afta com suplementos ou produtos de uso local.

Como diferenciar uma afta comum de uma lesão que precisa de atenção?

A maioria das aftas comuns cicatriza espontaneamente em aproximadamente uma a duas semanas. Ainda assim, algumas características justificam avaliação profissional.

Procure um cirurgião-dentista ou médico se a lesão:

  • Persistir por mais de três semanas.
  • For muito maior ou diferente das lesões que você costuma apresentar.
  • Sangrar, aumentar de tamanho ou se tornar progressivamente mais dolorosa.
  • Aparecer repetidamente em intervalos curtos.
  • Vier acompanhada de febre, perda de peso ou outros sintomas persistentes.
  • Ocorrer junto de feridas genitais, alterações na pele, dores articulares ou sintomas digestivos importantes.

Esses sinais não significam necessariamente que exista uma doença grave. Entretanto, podem indicar a necessidade de investigar outras causas além das aftas comuns.

Nem toda úlcera na boca é uma afta. Infecções, traumatismos, reações a medicamentos e outras doenças podem produzir lesões semelhantes. Uma ferida persistente deve ser examinada para que o diagnóstico correto não seja atrasado.

O que fazer para aliviar o desconforto das aftas?

Enquanto a lesão cicatriza, algumas medidas podem ajudar a reduzir a irritação:

Mantenha uma higiene bucal cuidadosa. Utilize uma escova macia e faça movimentos delicados para evitar traumatizar a região.

Evite alimentos que irritem a lesão. Alimentos muito ácidos, picantes, salgados ou muito quentes podem aumentar a dor. A tolerância varia de pessoa para pessoa.

Prefira alimentos de textura macia quando necessário. Isso pode tornar a alimentação mais confortável durante os dias de maior sensibilidade.

Observe possíveis desencadeantes. Se determinados alimentos, produtos de higiene oral ou situações parecem preceder os episódios, converse com um profissional antes de fazer restrições alimentares amplas.

Procure orientação para o tratamento local. Dependendo do caso, podem ser indicados produtos para alívio da dor ou medicamentos tópicos. A escolha deve considerar a causa provável, a intensidade das lesões e o histórico de saúde.

Não aplique substâncias irritantes diretamente sobre a afta nem utilize medicamentos de outras pessoas. Essas práticas podem agravar a lesão ou atrasar a cicatrização.

Por que não é indicado tomar vitaminas por conta própria?

Quando as aftas aparecem repetidamente, pode ser tentador começar a tomar um suplemento de ferro, zinco ou vitaminas do complexo B.

Entretanto, suplementar sem confirmar a necessidade pode não trazer benefícios e ainda causar efeitos indesejados.

O ferro em excesso pode ser prejudicial. Doses elevadas de zinco podem provocar deficiência de cobre, e o ácido fólico pode dificultar o reconhecimento de algumas manifestações hematológicas da deficiência de vitamina B12.

Além disso, se houver uma condição que comprometa a absorção de nutrientes ou provoque perdas persistentes, a suplementação isolada pode não resolver a causa do problema.

O caminho mais seguro é investigar quando houver indicação, corrigir as deficiências confirmadas e acompanhar a evolução das lesões.

O papel da avaliação odontológica na saúde integrativa

A boca pode apresentar sinais que ajudam a identificar alterações locais e, em algumas situações, levantam a suspeita de condições sistêmicas ou nutricionais.

Por isso, a avaliação de aftas recorrentes não deve se limitar à observação da ferida. É importante considerar sua localização, tamanho, frequência, duração, possíveis traumatismos e sintomas associados.

Quando existe suspeita de deficiência nutricional ou de uma condição sistêmica, o cirurgião-dentista pode orientar a investigação complementar e, quando necessário, recomendar avaliação médica ou nutricional.

Na Integrivita, valorizamos uma abordagem individualizada, que considera o histórico de saúde, os hábitos e as necessidades de cada paciente. Essa visão integrada não significa presumir que toda alteração na boca tenha origem nutricional, mas reconhecer quando é importante investigar além do sintoma.

Aftas recorrentes: o que vale lembrar?

Aftas são comuns e, na maioria das vezes, desaparecem espontaneamente. Porém, episódios frequentes podem justificar uma investigação mais cuidadosa.

Deficiências de ferro, vitamina B12, folato e zinco estão entre os fatores nutricionais estudados, especialmente em pessoas com lesões recorrentes. A presença dessas deficiências, contudo, não deve ser presumida apenas pela aparência ou frequência das aftas.

A avaliação profissional ajuda a identificar possíveis causas, orientar exames quando necessários e definir o tratamento mais adequado.

Se as aftas estão voltando com frequência, em vez de apenas tratar cada ferida isoladamente, vale investigar o que pode estar contribuindo para esse padrão.

Integrivita — mais do que cuidar de sorrisos, cuidar de pessoas.


Referências científicas

  1. Hematological parameters in patients with recurrent aphthous stomatitis: a systematic review and meta-analysis. PubMed, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38493289/.
  2. The Relationship Between Iron and Zinc Deficiency and Aphthous Stomatitis: A Systematic Review and Meta-Analysis. PubMed, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39234428/.
  3. Management of Recurrent Aphthous Stomatitis: An Indian Expert Consensus. Indian Journal of Dermatology, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10447672/.
  4. Guideline for the Diagnosis and Treatment of Recurrent Aphthous Stomatitis for Dental Practitioners. Journal of Clinical and Experimental Dentistry, 2015. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4441245/.
  5. NHS. Mouth ulcers. Orientações sobre evolução, cuidados e sinais de alerta. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/mouth-ulcers/.